Opinião

Em agosto nos vemos: o romance póstumo de Gabriel García Márquez
No episódio do Curioso Impertinente, encontrado ao final da primeira parte de Dom Quixote, publicado em 1605, Leonela observa a Camila não haver força que resista ao amor. A afirmação pode soar banal, mas poetas e prosadores tentam...
Por Jean Pierre Chauvin - 14/04/2024


Gabriel García Márquez, escritor colombiano e Nobel de Literatura | Foto: Reprodução

No episódio do Curioso Impertinente, encontrado ao final da primeira parte de Dom Quixote, publicado em 1605, Leonela observa a Camila não haver força que resista ao amor. A afirmação pode soar banal, mas poetas e prosadores tentam descrever esse afeto desde muito antes do que se convencionou chamar de Era Cristã. Bastaria recordar sobre o que versavam as tragédias e a poesia lírica, no mundo greco-latino e depois dele.

Salvo engano, o amor é o eixo condutor de Em agosto nos vemos, derradeiro romance escrito por Gabo, pouco antes de sua morte em 17 de abril de 2014. O enredo gira em torno de uma mulher de quarenta e seis anos, que leva as iniciais AMB no bolso de uma blusa, em visita a uma cidade distante daquela onde mora com a família.

Algumas páginas depois, descobrimos que ela carrega o mesmo nome que a segunda esposa de Johan Sebastian, Anna Magdalena Bach (“Ana” com um “n” a menos, no caso da personagem). Extravagância dos pais? Referência à personagem bíblica Maria de Magdala?

Narrado em terceira pessoa, inicialmente estamos à mercê do enunciador. O nome da protagonista é um dos aspectos mais curiosos do romance. Isso porque, às primeiras linhas, não temos os dados que permitiriam identificar a personagem. O maior ou menor vínculo que passamos a sentir em relação a ela vincula-se às ações que empreende, seja na casa onde habita, seja nos hotéis onde se hospeda – quando vai a uma pequena ilha, visitar o túmulo da mãe e “contar-lhe” as novidades sobre si mesma e sua família.

Levando-se em conta a economia do romance, importa saber que Ana Magdalena herdara da mãe “o esplendor dos olhos dourados, a virtude das poucas palavras e a inteligência para controlar seu temperamento”. Por que a informação interessa? Porque seus atributos físicos e mentais são elementos que, em parte, explicam os episódios que ela protagoniza.

Afinal, de que trata o romance? De várias coisas, a começar pela instituição matrimônio. Em agosto nos vemos problematiza os limites da individualidade, mais ou menos submetida às convenções, que uns obedecem com maior rigor e competência que outros. O narrador descortina a maneira como esposa e marido lidam com o contrato social a que se dá o nome de casamento. Mas, como era de se esperar, o enredo não se resume a um diário conjugal.

Talvez o maior interesse do romance resida no fato de se tratar de um enunciado que, ao mesmo tempo, é linear e circular. Linear porque acompanhamos, ano a ano, as viagens de AMB à cidadezinha, na ilha onde sua mãe está sepultada, e as mudanças por que passa a personagem, à medida que se aproxima dos cinquenta. Circular porque a trajetória de Ana Magdalena Bach se inscreve num movimento cíclico, aproximando sua história pessoal do mito particular.

Um sintoma disso é que a ansiedade da protagonista passa a dialogar com a estrutura narrativa: “Com as primeiras ondas de calor de julho, começou dentro de seu peito um bater de asas de borboleta que não daria trégua até que voltasse para a ilha”.

Como dizia, Em agosto nos vemos revisita um dos temas mais caros à ficção de Gabriel García Márquez: a (des)ordem dos afetos. Não se trata de mero palpite. No breve prefácio ao livro, Rodrigo e Gonzalo García Barcha são os primeiros a sugeri-lo: “O amor, provavelmente, o tema principal de toda a sua obra”.


Jean Pierre Chauvin
Professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP


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